A direita ultra-católica

Por Fernando Leme

O que deu no Diogo Mainardi? Eu me perguntava ontem à noite, depois de ouvir seu último podcast na Veja Online.

Mainardi resolveu tratar daquelas supostas mensagens ocultas na música de massas. Estranho que o assunto não tem nada de novo; eu havia sido exposto ao mesmo nível de estupidez na minha infância protestante no interior de São Paulo, e considerava o assunto parte daquele mundo fantástico e dualista que ignorava a existência de um mercado de massas e de uma cultura empresarial do lucro imediato.

O maior desvio deste raciocínio é pensar que o compositor tem tempo de, simultaneamente às questões puramente técnicas (letra, harmonia, melodia, timbre, arranjo, etc), ficar procurando palíndromos que se encaixem à letra para que sejam descobertos por quem não quer explicar o fenômeno de massas pelas vias do mercado e prefere acreditar em fantasmas. Mesmo que tal atitude fosse possível, seria extremamente improvável que fosse posta em prática por compositores medianos como os usados como exemplo. Acreditar na existência destas mesagens é creditar genialidade demais a gente como Erasmo Carlos, Michael Sulivan e Paulo Massadas, Jessé e Guilherme Arantes

Além disso, vejo com tristeza o fato de que o “direito a informação”, constitucionalmente tutelado, tranforme-se em dever da ignorância. Todas as supostas mensagens exigem um elevado grau de boa vontade para que se acredite nelas, e ainda que algumas de fato ocorram é muito mais fácil atribuí-las ao processo de formação do idioma, que dispõe de um repertório limitado de fonemas para formar um universo aparentemente ilimitado de significantes.

Impressiona a irresponsabilidade do jornalista, que não quer pensar que, se numa sociedade culta ou pelo menos educada sua matéria pode soar como curiosidade, num país de iletrados, expostos a mais vil e medieval pregação religiosa, sua opinião pode suscitar temores gigantescos que aumentam o emparedamento religioso e psicológico.

Pior ainda que o caos religioso é o afastamento da verdade dos fatos. De repente ignora-se a estrutura de divulgação e controle da indústria e crê-se na inevitabilidade do sucesso de poucos. Derivado este de acordos obscuros com forças do além.

Acreditar nisso é dispensar horas de análise da estrutura comercial vigente, que embora dê seus primeiros sinais de esgotamento, ainda tem muito carvão para queimar.

Mais assustador que qualquer palíndromo foi sua apologia ao regime Taleban, que segundo ele, ao banir do Afeganistão qualquer manifestação musical iniciou uma experiência civilizatória que poderia culminar num novo Renascimento! Mainardi porventura considera louváveis também o julgamento sumário e assassinato de opositores, o fundamentalismo, o anti-semitismo, o apedrejamento público de cônjuges infiéis e o cerseamento de direitos das mulheres?

Mainardi se dispôs a citar Flaubert e Michelangelo e questionar quantas músicas teriam eles ouvido no decorrer da vida. Cabe perguntar também quantos emails mandaram, quantos podcasts gravaram, quantas vezes abasteceram o automóvel com bio-diesel e analisar qual destas variáveis mais influi, positiva ou negativamente, no grau de genialidade de sua obra.

O autor conseguiu apenas evidenciar o quanto o raciocínio da extrema direita é perigoso. Escondido sob sua capa de civilzador culto jaz o ditador moral mais vil. O analista de mercado mais ignorante, o fatalista que atribui à poderes mágicos a realidade do sistema, crendo-o imutável e temível.

Depois de caçar bruxas no governo Lula, Mainardi rendeu-se ao misticismo e decidiu procurar bruxas em sentido estrito, ainda que elas não existam.

Amo odiar-te

Por Fernando Leme

Sou fã de Reinaldo Azevedo, tenho seu blog nos meus feeds por que quero acompanhar o desfile de idiossincrasias do jornalista.

Ele escreve muito. Mas calma, estou falando de quantidade. Há situações em que ele ultrapassa o número de atualizações da própria Veja online, o que significa dizer que ele sozinho tem mais vontade de falar do que a editoria inteira da revista.

Mas o que me surpreende mesmo é o quanto ele se esmera em ser original. Mesmo que isto lhe custe credibilidade e coerência. Vamos aos exemplos:

“Ronald Reagan foi muito mais importante para a humanidade — e para a causa da liberdade —do que Jean-Paul Sartre”.
Não meu amigo, a comparação não se aplica. O fundamento do pensamento em Sartre não pode ser colocado na mesma balança que um político mediano com ambições de falácia de ficção científica.

“A democracia no Brasil não morreu em 1964 porque a direita deu um golpe… Um governante responsável não teria promovido, ele próprio, a subversão, como fez João Goulart…”

Ah não? Historiador sui generis este rapaz. Além disso acho engraçado o uso da palavra “subversão”, principalmente neste país. Até onde sei, o governo Goulart, embora inábil politicamente, foi a primeira vez em que se vislumbrou a possibilidade de um contorno da herança histórica deste país. A frustração de Darcy Ribeiro, por ex., era, ao ser derrotado, sentir mais uma vez a vitória de quem ele chamava de elite.

“E foi o mito da “resistência” que levou Dilma, em cujo gabinete se fez um dossiê que desmoraliza a democracia, a fazer o famoso discurso no Senado em resposta ao senador Agripino Maia. Afinal, esse pessoal acha preferível ser herdeiro intelectual de uma ditadura que matou muitos milhões (referindo-se a Stalin) a ser herdeiro de um outra que matou poucas centenas (referindo-se à ditadura militar).”

Depois das ânsias que contive ao ler esta frase só consigo pensar que quero acreditar que vidas e corpos ainda não viraram moeda corrente com que se comparam atrocidades. Em segundo lugar, houve sim uma resistência, Gaspari gasta boa parte de sua obra sobre a ditadura analisando-a. Partindo da sua ótica a anistia foi fruto da criatividade coletiva?

“O número de homicídios caiu fantasticamente em São Paulo, por exemplo, porque é a Polícia do país que mais prende. Menos bandidos na rua, menos mortes. É simples assim no mundo inteiro.”

Sempre quis ser um destes simplistas, e neste quesito não posso deixar de admirá-lo. E é triste ver o cidadão que se diz sempre lógico e cioso das relações de causalidade não pensar que estímulo é esse que se dá ao criminoso em uma política de “tolerância zero”. Talvez o senhor Reinaldo creia que bandidos já nascem bandidos, e por serem bandidos deixaram de ser cidadãos, deixaram de ter direitos, passaram ao estado de coisa, dejeto.

Inúmeras variáveis que operam sobre o que convencionou-se chamar de índices de criminalidade foram violentamente ignoradas. Sugiro a ele algumas horas ao lado de Steven Levitt por que, se leu não gostou, mas se não leu, deveria.

Os anos FHC

Ghostbusters

Por Fernando Leme

Excertos da Folha de S. Paulo

Filho de Hélio Costa é fantasma no Senado

Eugenio Alexandre Tollendal Costa, filho de Hélio Costa, ministro das Comunicações, é funcionário-fantasma no gabinete de um senador em Brasília, informam Andreza Matais e Adriano Ceolin em matéria publicada na Folha.

Segundo a reportagem, Eugênio, que mora em Minas Gerais, está há cinco anos registrado como assistente parlamentar do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e possui vencimentos mensais de R$ 2.649,46. Tanto o senador quanto vários funcionários de seu gabinete ouvidos pela Folha nunca viram Eugênio por lá.

E…

Ministro confirma que filho era funcionário-fantasma

O ministro Hélio Costa (Comunicações) divulgou ontem nota na qual confirma que seu filho Eugenio Alexandre Tollendal Costa não prestou nenhum serviço ao então senador Duciomar Costa (PTB-PA), prefeito de Belém, nem ao senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA).

Segundo o ministro, Eugenio trabalhou em seu gabinete quando era senador, ele não especificou quando, “para planejar, desenhar e abastecer” sua home page.

Em conversa com a Folha, na quarta-feira, Eugenio disse que não estava lotado no gabinete do pai “por motivos óbvios”. A Folha revelou que, desde 13 de junho de 2003, ele é funcionário-fantasma no gabinete de Ribeiro, que vai exonerá-lo.

Costa disse que Eugenio “foi transferido do seu gabinete para o do senador Duciomar para prestar o mesmo trabalho”, mas o projeto não prosperou. Costa disse que não “tratou mais do assunto” com Duciomar desde que saiu do Senado e que o filho decidiu pedir demissão porque “é um jovem de caráter irreparável”.

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Bom, agora é a minha vez. Primeiro, o “jovem de caráter irreparável” recebia mais de R$ 2.500,00 desde 2003 e pediu demissão só agora?

Segundo, descoberta a falcatrua, quando os responsáveis devolverão o dinheiro recebido sem qualquer prestação de serviço?

Terceiro, quantas vezes isto acontece em todas as esferas administrativas do país? Eu, que tenho experiência pífia neste setor, já presenciei o desrespeito e desinteresse pela coisa pública que este tipo de “funcionário” representa. E mais do que isso, a dignidade dos demais funcionários fica imediatamente comprometida quando se sabe que alguém, geralmente ganhando mais do que você, está lá para nada.

Engraçado que desta vez a “oposição” não está criando caso. Talvez por que a prática esteja tão disseminada que ninguém quer abanar o rabo e expor os fundilhos.

Evangelismo sedento

Por Fernando Leme

A premissa de que o mundo está prestes a acabar é de fato poderosa. Aliada a uma boa dose de presunção torna-se uma arma de intimidação que a humanidade acostumou-se a usar desde sempre.

Me refiro ao evangelismo sedento, desesperado. Me refiro à pregação religiosa mais vil e apressada, que no mundo do email encontrou habitat para textinho vagabundo com erros gramaticais e semânticos.

Qual é o portador de qualquer coisa que vende tão barato seu produto? A lógica da divulgação religiosa  impensada não pode ser outra senão a comercial. O desrespeito evidente pela diferença, a intensidade ameaçadora do discurso e o vazio intelectual surpreendem.

Cruzadistas e jihadistas de fundo de quintal de igreja pentecostal de quinta, dou-lhes uma dica: O Estado brasileiro lhes permite total liberdade religiosa e de culto, de pensamento e fé. Tal liberdade não vos dá o direito, entretanto, de coagir os demais.

A opção sexual, a marca do sabonete, o tipo de molho da lasanha e a religião são decisões da esfera privada que não precisam de publicidade.

Tenho minhas crenças, tenho minha fé, devidamente posta em dúvida e confrontada com a urgência  de existir. Mas você nunca ouvirá delas sem perguntar.

Ou então arranje logo uma espada e umas bombas e vá explodir seus iguais fundamentalistas. Se assuma.

Coração doente

Por Felipe Novais

“Aqui, sim, no meu cantinho,

vendo rir-me o candeeiro,

gozo o bem de estar sozinho

e esquecer o mundo inteiro.”

(Castilho.)

Eu dou risada. O tempo todo vemos na TV, na Internet ou em outro meio de comunicação essas “terapias do amor”, do tipo “encontre sua alma gêmea”, “como salvar um casamento” e “347 maneiras de enlouquecer um homem na cama”. Eu rio muito.

Parece que alguns passam a vida toda atrás dessas idiotices e continuam encalhados. Enquanto outros, sem nenhum esforço, não ficam mais de uma semana sozinhos. Interesse, beleza, retórica, dinheiro acabam não fazendo diferença alguma na vida amorosa. Qual é a explicação?

Não há explicação. As coisas não são lógicas.

Não, talvez haja algo que se aproxime de explicação. Eu penso o seguinte: a maioria de nós não consegue enfrentar a solidão. Não há o que censurar, a solidão é muito difícil mesmo. Para Victor Hugo, “a solidão faz homens de talento ou idiotas”, o que um observador atento consegue verificar em seu dia a dia. Assim, com o primeiro sinal da solidão, a pessoa já faz seu cadastro no clube do namoro. E não se sente ridícula.

Mas isso não é de hoje. Alguém se lembra dos “Conselheiros do Amor”, aquelas cartilhas com diversos modelos de cartinhas de amor? Então, quando o rapaz não tinha forças para declarar-se à moça, socorria-se de um desses livrinhos, escolhia um modelo de declaração de amor e endereçava à amada. Pronto. Estava feita a besteira. Em pouco tempo estava casado. E não era bem aquilo que ele queria…

Enfim, isso não é de hoje. Mas nunca foi tão medonho.

Agripino X Dilma

Por Fernando Leme

Agripino Maia tentando explicar por que, afinal, fez uma pergunta tão imbecil à Dilma Roussef.

Blog – O que o sr. queria, afinal, com aquela pergunta à ministra Dilma? Provar que, se ela mentiu sob tortura, poderia estar mentindo ali também?
JAM –
Claro que não! Eu queria a verdade apenas. Reconhecendo a perversidade de que ela foi vítima no regime de exceção — e apresentei claramente a minha solidariedade a sua Excelência —, manifestei minha preocupação com a volta ao passado

(risos)
E de fato, dar a cara a tapa assim, em público, é quase inexplicável.
Mas gostei mesmo da noção de solidariedade do nobre senador. Vá ser solidário assim no inferno.

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Esclarecimentos:

Algumas pessoas me responderam dizendo que eu não deveria defender a Dilma, outros dizendo que o Agripino é um sujeito digno e merece respeito. Pessoal: Take it easy!

Eu estou me referindo à situação específica da pergunta idiota do Agripino para a Dilma. Desconheço mais profundamente a biografia de ambos e quando pretender falar delas, pesquisarei.

E para provar que o sujeito pode ser útil, faço meu o gesto dele logo abaixo:

A histeria liberal

Por Fernando Leme.

É interessante presenciar o desespero com que grande parte da direita histérica assiste algumas iniciativas do poder público. Egressos da política do “salve-se quem puder” se esquecem que a erradicação da pobreza e a igualdade social são metas constitucionais. Não gosta delas, mude a Constiuição ou mude de país.

Como argumento, dizem que o bolsa-família é “esmola”, que “dá o peixe ao invés de ensinar a pescar”, que é “dar dinheiro para vagabundo continuar vagabundo”.

Eu mantenho dois pés atrás com argumentos científicos como esses, que demonstram na verdade o assodamento com que a direita liberal e sua política de estado mínimo e “deixa fazer, deixa passar” encara a existência do dejeto humano que seu sistema não consegue abarcar.

Ao capitalismo puro, exercido por sociedades complexas como a brasileira, cumpre deixar um excedente em vidas humanas necessário à manutenção do sistema.

Celso Furtado mencionou a existência desta necessidade ao analisar (no clássico “Formação econômica do Brasil”) que o desenvolvimento da cultura do café (excludente e concentrador de renda por natureza) dependia da disponibilidade indefinida de mão-de-obra e terras agricultáveis que sustentassem o contínuo crescimento da área da lavoura sem qualquer investimento que reduzisse seus lucros.

Pessoas, deste ponto de vista deixam de sê-lo, e se tornam meios de organização do modo de produção, desumanizados, alijados da existência, dos sonhos e afins.

Este excedente é imoral.

Assim, no que se refere especificamente aos programas de transferência de renda, por maior a gritaria, é inegável o seu sucesso na difícil tarefa de redistribuir a riqueza nacional em função das necessidades básicas (estudo do IPEA sobre o tema), isso por que, da pirâmide de necessidades humanas obtém-se o fato de que as fisiológicas têm evidente preponderância. Não há o que se esperar do faminto.

Obviamente, este tipo de programa depende de uma correção constante de rumos e alvo. O que não os torna, em nenhum momento, desmerecedores da nossa atenção e respeito.

Em suma, arranjem outro alvo, por que este é facilmente defensável. Ou admitam que seus argumentos são fachada, a face polida de um temperamento neonazista.

O hino de uma revolução

Por Felipe Novais.

“Todo coração é uma célula revolucionária.” ( “The edukators.”)

Até para quem não conhece a história do “Concerto para piano e orquestra nº 5″, de Beethoven, é inevitável, após uma audição atenta desse concerto, conceber idéias pulsantes como as de liberdade e igualdade. Toda a obra de Beethoven exala essas idéias nobres, mas o concerto “Imperador” parece ser o momento onde elas tem o seu brilho mais intenso.

O concerto começou a ser composto em 1809, quando as tropas napoleônicas cruzavam a Europa. Beethoven, defensor dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que culminaram na Revolução Francesa, embora desapontado com os rumos tomados a partir da sagração de Napoleão como imperador, sentiu-se animado naquele momento a compor o que seria seu último concerto para piano, e o último de seus concertos. Não se deve ao compositor o apelido “Imperador”, que provavelmente não o agradou, mas a um oficial do exército francês que, na estréia do concerto, levantou-se e assim o saudou.

A própria obra é uma revolução. No primeiro movimento, antes da apresentação do tema, o piano exibe uma “cadenza” interrompida por berros guerreiros da orquestra. Isso foi uma novidade na época. O segundo movimento é de uma calma submarina, com uso intenso do “pizzicato”, com melodias leves e meditativas, interrompidas pelo “ataque” enlouquecido do terceiro movimento, que encerra o concerto.

Não se pode entender o que foi a Revolução Francesa sem ouvir o concerto “Imperador”. É uma obra de um homem que viveu naquela época, e acima de tudo que viveu os ideais daquela época, sem maiores pretensões políticas.

Recebamos o concerto “Imperador” como o hino de toda revolução.