Há algum tempo, os autores deste blog discutem, ocasionalmente, vários temas lingüísticos controvertidos, sobretudo gramaticais.
E a discussão, em determinados momentos, torna-se tão violenta que os contendores põem em risco a incolumidade de quem encontra-se por perto (normalmente o embate se dá em alguma bodega).
Assim, para evitar maiores danos, a briga passará a ter espaço aqui. E os lutadores, em comum acordo, submetem-se unicamente a uma regra: manter o espírito científico.
O Felipe promete usar o seu Caldas Aulete de cinco volumes que já partiu duas estantes de madeira, além do antológico Luiz Antonio Sacconi. E se a luta for penosa, adverte, não hesitará em sacar um purista!
O Fernando parece não temer as ameaças: “Hahaha! Vou mandá-lo para os quintos com os seus alfarrábios empoeirados!”
Que comece a luta!
9 Comentários
“Round” 1:
“A rigor” ou “em rigor”?
Segundo os Manuais de Redação e Estilo da Folha de São Paulo e do Estadão, a rigor.
Segundo a minha opinião, a rigor. Rigor não é um lugar, não é “em” coisa nenhuma.
Nós já pensamos de outra forma. Em qualquer ciência, talvez em maior medida na Lingüística, a intransigência só leva a enganos.
Um exemplo disso, em gramática histórica, é o de algumas construções que em determinada época eram repudiadas pela modalidade culta da língua e que, com o uso, passaram a ser aceitas. Assim, o uso geral e prolongado de uma palavra ou expressão tida por incorreta pela língua culta, depois de algum tempo, tende a torná-la correta. A explicação é simples: uma língua é feita por quem, diariamente, se utiliza dela no falar e no escrever.
Parece que foi o que ocorreu com a expressão “em rigor”, que, sem nenhuma explicação além dessa, freqüentemente passou a ser substituída por “a rigor”. E em autores de respeito vemos ambas as formas. Não há como dizer que uma está certa e a outra não.
Porém, temos que manifestar nossa simpatia pela primeira. Embora ambas tenham uso corrente no português contemporâneo, é certo que a primeira ainda é a mais empregada, e a que tem a preferência dos escritores mais autorizados.
Passando para o campo da gramática normativa, ao analisar as várias relações estabelecidas pela preposição “em”, encontramos a de “modo” (sair “em” turma, votar “em” branco). Tudo indica que foi dessa relação que veio a locução adverbial “em rigor”. Quanto ao argumento de que esta forma está incorreta por parecer indicar lugar, posição ou localização, não pode ser mais vazio, visto que a preposição “em” tem também outros valores, além de a indicação de lugar também admitir outras preposições.
Neste sentido é a lição de Luiz Antonio Sacconi:
“‘A rigor’, em rigor, é expressão copiada do francês ‘à la rigueur’. Só devemos usar palavras, expressões, construções estrangeiras, quando absolutamente necessárias. Parece-nos que ‘em rigor’ substitui a contento ‘a rigor’.” (Luiz Antonio Sacconi, “Não erre mais!”.)
O dicionário de Caldas Aulete só registra a forma “em rigor”, trazendo exemplo retirado de Antônio Vieira:
“’Em rigor’ (loc. adv.), rigorosamente, conforme às exigências do assunto; no sentido estrito: Quem ignorando ofendeu, ‘em rigor’ não é delinqüente. (Vieira.)” (Caldas Aulete, “Dicionário contemporâneo da língua portuguesa”.)
Resumindo, hoje ambas as formas são corretas. Mas se alguns estribam-se em manuais de redação jornalística para condenar uma das mais limpas expressões do português hodierno, só temos a lamentar. Preferimos a companhia de um Antônio Vieira.
Calem-se os infiéis e infelizes. A primeira batalha foi vencida pelo rapaz de branca aura, leve pena e nenhuma compaixão pelo oponente.
Só pra concluir, em espírito de conciliação, eis um interessante acervo de exemplos em ambos os sentidos:
http://www.corpusdoportugues.org/x3.asp?w10=a&w11=rigor&r=19,18
http://www.corpusdoportugues.org/x3.asp?w10=em&w11=rigor&r=19,18
“Round” 2:
“Hércules-Quasímodo”
“Os sertões”, de Euclides da Cunha, é um livro que está entre a ciência e a arte: ao mesmo tempo em que documenta um momento da história brasileira – a Guerra de Canudos -, também é um texto literário – e dos mais ricos da nossa literatura.
O trecho mais famoso do livro é aquele em que o autor descreve a figura do sertanejo (“O sertanejo é antes de tudo um forte.”). Nesse trecho, que deve servir de inspiração a todos que se esforçam para escrever bem, Euclides da Cunha trabalha como poucos com recursos como a metáfora, a combinação de generalizações com especificações, etc. Mas o autor incide numa pequena impropriedade quando dá à sua personagem o nome de “Hércules-Quasímodo”.
Certamente, quando tratou com essa expressão o sertanejo, tinha em mente colocar lado a lado duas de suas características – a força e a feiúra. A idéia do autor foi das melhores. E a metonímia também teria sido, não fosse o fato de Quasímodo ser tão forte quanto feio.
Quasímodo é o sineiro corcunda, caolho e disforme do romance “Notre-Dame de Paris”, de Victor Hugo. Numa das cenas do romance, a feiúra dessa personagem é motivo de gozação pelo povo. Quando alguém aproxima-se do corcunda para humilhá-lo mais de perto, é levantado pela cintura e atirado a dez passos de distância. Em outros momentos, o autor descreve a facilidade com que o corcunda trepava pela descomunal catedral de Notre-Dame.
Enfim, Quasímodo era muito feio e muito forte, o que faz da expressão de Euclides da Cunha – “Hércules-Quasímodo – uma redundância condenável. Bastaria ter dito Quasímodo, ou então acrescentado outro nome ao de Hércules.
Mas nossa admiração pelo autor de “Os sertões” continua desmedida.
A internet é a mais expressiva das formas do fenômeno chamado “globalização”. Abrangente que é de toda forma de conhecimento, de informação, dentro de seu todo dispõe de coisas maravilhosas. Como também de verdadeiro lixo, a exemplo dos sites que exploram o sexo.
Que bom constatar que, nesse universo de conhecimento, podemos garimpar alguns tesouros. Este espaço é um bom exemplo. Parabéns a seu idealizador.
Hércules-quasímodo, a revanche.
É triste constatar a sanha dicionarística e enciclopédica do meu oponente. E torna-se forçoso mencionar que parte da beleza e pasmo da literatura advém de sua capacidade de, respeitando conceitos, desfazê-los.
Não deve existir certeza científica numa obra de arte. Deixemos a ciência com seus donos, deixemos os dicionários aos lexicógrafos e usemos de bom senso para saborear literatura.
A certeza é aquela, por ex. que Capitu não nos deixa ter. É aquela que não torna factível a existência de Macondo e suas tempestades de areia mágica. É aquela que ignora que Hércules, herói de beleza e força, pode, de algum modo, opor-se a Quasímodo, feio e rejeitado.
A literatura é a arte da incerteza e da imprecisão. Quem não gosta que vá escrever livros de gramática.
Querido oponente:
É… você tem razão: em nome da arte, não podemos atacar a expressão “Hércules-Quasímodo”. E nem as expressões “faraó egípcio”, “samurai japonês”, “subir pra cima”, “rever de novo”.
Num poema dadaísta (ou mesmo num romance do realismo fantástico, como “Cem anos de solidão”) seria normal usar essas redundâncias. Elas podem dar cor ao escrito. Mas dependendo do contexto, são só redundâncias. Em “Os sertões”, a narrativa da Guerra de Canudos, “Hércules-Quasímodo” é só uma redundância.
Não tente justificar a todo custo um erro desses. É até antiético.
Mas depois de ler o trecho em questão, fiquei pensando por que o autor teria escrito algo tão ilógico (se Quasímodo é tão forte, o que Hércules está fazendo ali?).
Euclides da Cunha, em 1909, disputou uma cadeira de Lógica no Colégio Pedro II, e entre os candidatos com os quais concorreu estava Farias Brito, “o maior cérebro, como receptividade e capacidade de interpretação, que a filosofia produziu no Brasil”. E foi Euclides da Cunha o vencedor.
Como um professor de Lógica escreve uma coisa dessas!?
Podemos indicar dois motivos: ou ele sabia da sandice que estava dizendo, e quis enganar o leitor que não tivesse lido “O corcunda de Notre-Dame”; ou ele mesmo não tinha lido este livro, e só ouviu em algum lugar que Quasímodo era muito feio fisicamente, revelando um cacoete típico dos jornalistas: falerem do que não sabem…
Fernando:
Andei pensando, e acho que eu exagerei. Tal imperfeição lógica (se existe mesmo) é tão pequena na obra de Euclides da Cunha, que me sinto indigno discutindo-a.
Esta batalha você venceu. Concordo com você.