Por Felipe Novais
Em qualquer sociedade formada sob a influência européia, onde haja organização do trabalho e alguma estrutura política, como conseqüência necessária dessa situação, existe um grupo restrito de pessoas que possuem algum conhecimento técnico: são os advogados, os médicos, os economistas. E cada uma dessas profissões exige conduta, figurino, vocabulário próprios.
Os advogados, quando conversam entre si, usam de um vocabulário que às vezes só eles conseguem entender. Isso porque, para falar de direito com a clareza e a precisão que a ciência reclama, as palavras do nosso cotidiano são insuficientes. O processo não é um bate-papo.
Mas o advogado não precisa tomar essa língua para conversar com um lavrador. Este não iria entender muito bem o que seria dito. A linguagem tem uma só finalidade: estabelecer comunicação entre as pessoas. Se isso puder ser feito com correção e estilo, tanto melhor; porém a língua não é mais do que um instrumento de comunicação.
Não se sabe se por presunção, ou vaidade, ou falta de bom senso, alguns dos detentores do conhecimento técnico das cidades brasileiras insistem nos preciosismos, arcaísmos e expressões em língua estrangeira ao tratar com aqueles que não fazem parte do seu grupo profissional. O profissional não necessita demonstrar o seu conhecimento de maneira a impressionar o interlocutor, como num espetáculo circense: ele deve tão-somente fazer o seu trabalho, e para isso dispõe da ferramenta.
Mais do que incapacidade de adequação da atitude a cada caso particular, isso revela uma grande falta de respeito. A pessoa que conversa com um profissional assim sente-se desrespeitada, e com isso ergue-se uma parede de incompreensão e hostilidade entre aquele que pode ajudar e aquele que precisa de ajuda.