A franqueza de um vencido

Por Felipe Novais

“Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.” (Eclesiastes 1, 2.)

É antigo o meu gosto pela leitura. Esta, freqüentemente entrecortada por algum devaneio poético, ou qualquer coisa semelhante, preenchia boas horas do meu dia. Eu tinha mesmo a ambição de tornar-me um grande escritor, como o Dante da “Divina comédia”, o Goethe do “Werther”, o Lorca das “Bodas de sangue”.

Desde criança eu tenho uma mania boba de grandeza. Tudo devia ser solene e majestoso. Não me contentava com menos do que um Beethoven, que escutava repetidamente, numa espécie de hipnose heróica.

Eu também jogava bola na rua, brigava na escola e atirava mamonas nos cabelos das meninas. Mas isso tudo ficava em segundo plano. Eu desde lá já era um anormal.

Enfim, eu planejava uma carreira de intelectual festejado.

Mas o que me vejo fazendo hoje? Crônicas! O gênero mais frívolo e irresponsável da literatura. Talvez nem literatura seja, parece mais um desabafo desordenado, entre texto jornalístico e redação de 4ª série.

Crônicas! Que erudito sério algum dia prestou-se a escrever crônicas? E se o fez, certamente não teve o atrevimento de publicá-las. As minhas então são uma tristeza: falta de assunto, falta de inspiração… o que me leva a buscar em escritores de verdade algo que legitime o meu falatório.

Se alguém caiu no meu engodo, peço desculpas. Toda essa demonstração de erudição e cultura (que qualquer macaco de circo pode fazer) nunca passou de expediente funesto para disfarçar a minha falta de conteúdo. Por vaidade.

2 Comentários

  1. Enviado Junho 23, 2008 em 3:46 am | Link Permanente

    Me identifiquei plenamente com esse “esboço” de literatura aqui exposto. Toda vez que crio algo, ou até mesmo penso, tenho as mesmas constatações que aqui colocasses. Lí num tempo atrás, que seres ligados a cultura, seja qual tipo for, possuem esse modo de ser devido as reminiscências trazidas através dos tempos, de outras vidas. Alcançam um patamar não-comum a todos, uma sensibilidade exposta, e durante o sono voltam as esferas ligadas a essas artes, por isso quando retornam se frustram em não conseguir extravasar e expor da mesma maneira o que vivenciaram nessas esferas mais altas.
    Não é por soberba, mas foi a única explicação plausível que encontrei e que aquietou a minha alma. Pois muitas vezes tenho noções de assuntos que ainda não vivi e pareço dominar, assim como a música, as letras, enfim, passo o mesmo calvário que tu cita tão bem aqui. Mas ultimamente tenho encontrado alento nessa crença. Pois venho fazendo um estudo de várias personalidades importantes da humanidade que passaram o mesmo. Tinham o saber e não entendiam de onde, sentiam-se inspirados e frustravam-se, eram incompreendidos. Até por si mesmo.
    Quantos seres comuns como nós, tanto eu quanto tu e todos os demais não conhecemos que sentem o mesmo? Tenho certeza que são muitos. Bom, então são muitos batalhadores por um mundo melhor, ou seja, voltado ao íntimo e as artes.
    To sempre pondo essas questões em andamento no meu blog, passa lá se achar pertinente as minhas idéias.

  2. Ana Carolina
    Enviado Julho 29, 2008 em 3:22 pm | Link Permanente

    A única vez que me atrevi a escrever uma crônica foi por obrigação o colégio ….e ainda tirei um zero bem redondo !!


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