Amo odiar-te

Por Fernando Leme

Sou fã de Reinaldo Azevedo, tenho seu blog nos meus feeds por que quero acompanhar o desfile de idiossincrasias do jornalista.

Ele escreve muito. Mas calma, estou falando de quantidade. Há situações em que ele ultrapassa o número de atualizações da própria Veja online, o que significa dizer que ele sozinho tem mais vontade de falar do que a editoria inteira da revista.

Mas o que me surpreende mesmo é o quanto ele se esmera em ser original. Mesmo que isto lhe custe credibilidade e coerência. Vamos aos exemplos:

“Ronald Reagan foi muito mais importante para a humanidade — e para a causa da liberdade —do que Jean-Paul Sartre”.
Não meu amigo, a comparação não se aplica. O fundamento do pensamento em Sartre não pode ser colocado na mesma balança que um político mediano com ambições de falácia de ficção científica.

“A democracia no Brasil não morreu em 1964 porque a direita deu um golpe… Um governante responsável não teria promovido, ele próprio, a subversão, como fez João Goulart…”

Ah não? Historiador sui generis este rapaz. Além disso acho engraçado o uso da palavra “subversão”, principalmente neste país. Até onde sei, o governo Goulart, embora inábil politicamente, foi a primeira vez em que se vislumbrou a possibilidade de um contorno da herança histórica deste país. A frustração de Darcy Ribeiro, por ex., era, ao ser derrotado, sentir mais uma vez a vitória de quem ele chamava de elite.

“E foi o mito da “resistência” que levou Dilma, em cujo gabinete se fez um dossiê que desmoraliza a democracia, a fazer o famoso discurso no Senado em resposta ao senador Agripino Maia. Afinal, esse pessoal acha preferível ser herdeiro intelectual de uma ditadura que matou muitos milhões (referindo-se a Stalin) a ser herdeiro de um outra que matou poucas centenas (referindo-se à ditadura militar).”

Depois das ânsias que contive ao ler esta frase só consigo pensar que quero acreditar que vidas e corpos ainda não viraram moeda corrente com que se comparam atrocidades. Em segundo lugar, houve sim uma resistência, Gaspari gasta boa parte de sua obra sobre a ditadura analisando-a. Partindo da sua ótica a anistia foi fruto da criatividade coletiva?

“O número de homicídios caiu fantasticamente em São Paulo, por exemplo, porque é a Polícia do país que mais prende. Menos bandidos na rua, menos mortes. É simples assim no mundo inteiro.”

Sempre quis ser um destes simplistas, e neste quesito não posso deixar de admirá-lo. E é triste ver o cidadão que se diz sempre lógico e cioso das relações de causalidade não pensar que estímulo é esse que se dá ao criminoso em uma política de “tolerância zero”. Talvez o senhor Reinaldo creia que bandidos já nascem bandidos, e por serem bandidos deixaram de ser cidadãos, deixaram de ter direitos, passaram ao estado de coisa, dejeto.

Inúmeras variáveis que operam sobre o que convencionou-se chamar de índices de criminalidade foram violentamente ignoradas. Sugiro a ele algumas horas ao lado de Steven Levitt por que, se leu não gostou, mas se não leu, deveria.

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