A dor de compor e o tempo e o vento

Por Fernando Leme

Virá para que eu a possa dizer adeus, como já disse tantas vezes sem querer.

Pasmo.

Pasmo, esperança, alegria, tristeza, assim como cores como azul, vermelho cinza e verde são informações com alto grau de subjetividade que a música tem condições para produzir. O que varia é a quantidade de elementos necessários para que se produzam diferentes estados de espírito.

Na batalha que tenho travado aqui dentro nos últimos meses (uma buscca enlouquecida por mim mesmo, pelas referências da minha história, pelos tijolos que me fazem uno) fui levado num fio de referências a pousar em Tom Jobim e Érico Veríssimo.

Quando criança no começo da década de 80 do século passado, no começo da noite, ouvir a série de três notas descendo de meio em meio tom tinha em mim efeito de filme de terror. Aliada a criação de personagens riquíssimos de Érico Veríssimo, criava em mim uma suspensão do tempo que me dava um frio na barriga.

A tesoura que cortou o cordão umbilical de Ana Terra virou fotografia que nunca perdi da memória. Havia um clima qualquer de incompreensão da minha mentalidade infantil que não me permitia racionalizar os fatos e acabavam por produzir a sensação de um medo constante e assustadoramente prazeroso. O domínio da construção de acordes, suas inversões e tensões. Que revivo.

Esperança

Num esforço fora do comum tenho tentado compor nestes últimos dias. Uma frase perturbadora me persegue há dias. E há dias a sinto reverberar sem encontrar solução que me alegre. Sem descobrir melodia que a resolva, sem encontrar palavra que a complete.

Mas, assim como na música do Tom, em que se muda de sentimento como quem dobra a esquina, como quem sai da serra chuvosa e cai no litoral ensolarado, vejo surgir em frente uma solução. Virá, num surto de Caetano, impávido que nem Mohamad Ali.

Virá como vieram tantas outras soluções, como vieram meu filho e os presentes a que chamo de família. Virá como vieram os amigos que carrego no peito ainda que dolorosamente distantes.

Virá para que eu a possa dizer adeus, como já disse tantas vezes sem querer.

Comente

Seu email nunca será publicado ou compartilhado. Campos necessários estão marcados com *

*
*