Por Felipe Novais
O brasileiro é um povo dos mais plurais que existem, produto do encontro de várias matrizes étnicas, e se apresenta com características próprias que variam de acordo com a região do país em que o encontramos. Nessa situação, fica difícil reconhecer os pontos de identidade entre as gentes das diversas regiões brasileiras, o que não significa, no entanto, que essa identidade não exista. Buscando um traço que seja comum tanto ao brasileiro do Norte quanto do Sul, tanto do interior quanto do litoral, chegamos a um quadro que apresenta, entre outros, o seguinte detalhe: o brasileiro é um explorado, um desrespeitado, aquele que desde sempre foi submetido a trabalhar para enriquecer os outros, e que ainda vaga em busca de um pedaço de terra onde possa trabalhar e viver em paz.
Assim, esse povo está sempre se deslocando à procura de um lugar melhor. Mas nem diante dessa tragédia nacional parece se comover a nossa elite branquela (na mentalidade, não na cor), que continua o seu projeto de exploração. Principalmente aos domingos, algumas emissoras de televisão mostram comoventes reencontros entre familiares distantes de baixa renda. Esses reencontros são caridosamente patrocinados pelas emissoras, que pagam as viagens, as dívidas e uma mobília nova para a família. Os retirantes agraciados vão às lágrimas, e a audiência das emissoras chega à estratosfera.
Grande parte dos que assistem ao espetáculo é formada por pessoas em situação parecida. Elas se alegram com a sorte que teve o seu semelhante, e esperam que um dia a sua mude também.
Mas que obra de caridade é essa, que beneficia meia dúzia de brasileiros desgraçados e deixa os outros tantos milhões só olhando? Esse é um exemplo triste da irresponsabilidade da nossa elite, que, por uns pontos na audiência, humilha o povo sofrido do Brasil com uma esmola miserável, que é agradecida de joelhos.
Nós não precisamos de esmolas. Nós precisamos de terra para plantar, escolas mais dignas e, acima de tudo, respeito. E todo brasileiro, quando lhe fosse oferecido algum benefício individualmente, deveria seguir o exemplo do vira-lata Jujuba, que, na peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, recusou a refeição que os soldados lhe ofereceram, pois ofereciam a ele e negavam aos outros vira-latas que o acompanhavam, seus companheiros de classe.