Franz Liszt, médico e monstro

Por Felipe Novais

Uma figura que não ganhou a minha simpatia, na época em que eu a distribuía aos gênios da escola romântica, foi Franz Liszt. Hoje eu não saberia sustentar as razões dessa ojeriza – talvez nem me recorde delas. Mas vamos lá…

Franz Liszt, famoso compositor húngaro do século 19. A maior parte da sua obra, como ocorre com tantos outros compositores do período, está escrita para piano. Liszt, junto com o seu amigo Chopin, escreveu algumas músicas para os desenhos animados da Warner.

Quando eu comecei a escutar música – digo, a selecionar com o máximo critério o que deveria chegar aos meus ouvidos –, fechei as portas para Liszt. Não era um romantismo que me atraía; ele sempre foi para mim um romantismo científico, quer dizer, algo frio, sem muito espírito, encoberto por uma aura de virtuosismo que eu não conseguia engolir. Além disso, a sua história me incomodava: ele arrebatava multidões com interpretações brilhantes, diabólicas até, herança de Paganini; vivia rodeado por amigos e mulheres – imaginem, as fãs até desmaiavam nas suas apresentações! Lizst era pop. Como eu poderia escutar algo assim? Não era coerente; eu era tímido. E a agitada vida amorosa de Liszt destacava a melancolia em que eu vivia. Não, eu escutava Schubert, Schumann, Brahms – os tímidos e desgraçados.

Parece que a única coisa que melhora em nós com o tempo é a percepção. Franz Liszt foi um homem espirituoso, e o seu sucesso, antes de lhe trazer felicidade, lhe atormentava profundamente; para alguém de espiritualidade forte, uma vida material intensa só traz desgosto e frustração. E Liszt se lamentava por se apegar de alguma forma ao sucesso e à vida material. Ele se sentia mesquinho. No final da vida, tornou-se abade. Foi morar num convento.

Um dia desses lembrei-me do romance O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886, ano da morte de Liszt. No romance, um médico de reputação intocável, provocado pelos seus instintos, desenvolve uma droga que o transforma num monstro. Assim, quem se atira aos prazeres materiais e ao crime é o monstro, enquanto o médico continua a sua vida de bom cidadão. O autor nos deixa como lição final que todos temos um lado bom e um lado mau, e ninguém é tão bom ou tão mau quanto parece.

Então procurei alguma coisa de Liszt para ouvir.

Um comentário

  1. Luiz
    Enviado Fevereiro 25, 2008 em 3:45 am | Link Permanente

    Esse texto é impressionante!! Parabéns Felipe


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