Que o Papa vá à merda

As recentes declarações do Papa Ratzinger não poderiam ser mais apropriadas. A compreensão da estratégia da Igreja de manutenção do servilismo ideológico a qualquer preço combinam com a aparência cruel e irredutível do ex-inquisidor alçado a Papa.

Servilismo este que depende de uma estrutura que mantenha à todos alheios a si mesmos. Alheios aos seus problemas (e principalmente da solução deles). Em resumo, a desinformação, o obscurantismo e a ignorância SEMPRE foram as ferramentas mais eficazes para a sustentação da propaganda religiosa.

Ao declarar que o uso da camisinha, na verdade, piora o problema, Joseph Ratzinger se vê obrigado a usar dos argumentos mais baixos à disposição. O santo padre avisa que o único meio seguro de se proteger da AIDS e, portanto, evitar sua disseminação, é a abstinência sexual.

Claro! Se a comida em determinado restaurante está podre, deixe de comer. Pena que este é o único restaurante disponível! Mais triste ainda é que bastaria lavar as mãos para estar novamente habilitado às refeições. De agora em diante, se o ar não lhe agrada, deixe de respirar.

A constatação impressionante, entretanto, é que o argumento do santo padre não consegue nem convencer seus padres envolvidos em casos de pedofilia ao redor do mundo.

Qualquer opinão pessoal é defensável como tal. Quando as mesmas declarações atingem status de declaração política, entretanto, deveriam ver-se revestidas de respeito às políticas públicas que procurem, cientificamente, resolver o problema.

Tanta contundência e determinação não são vistas nas palavras do Cardeal Ratzinger ao tratar da tragédia humanitária em Darfur, às guerrilhas de Mogadício.

Talvez porque genocídio, indefinição política e AIDS sejam os parceiros defintivos para a consecução dos objetivos últimos da igreja, dentre os quais não encontro fé legítima.

Texto originalmente publicado em Universo Fer.

Da harmonia

Por Felipe Novais

Até mais ou menos o último quartel do século 19, a tendência na pintura européia – e em todos os países que estavam sob a influência cultural da Europa – era um classicismo mórbido e apático, cujo representante mais célebre foi Cabanel. Nos salões da época, entravam poucas pinturas que não fossem a representação de uma cena histórica, ou de uma divindade grega, abundantes em detalhes e carentes de cor e estilo. Embora artistas como Delacroix, Daumier e Corot representassem uma significativa reação a essa pintura deprimente que dominava os salões, só se pode falar numa reação ampla a partir da vitória do Impressionismo, nos últimos anos desse século.

Antes disso, o que podia agradar o público num quadro era a riqueza de detalhes; a escolha do tema, o viço do traço e a harmonia das cores eram aspectos da obra que pouco interessavam ao público: o que realmente interessava era o virtuosismo, a capacidade que o pintor tivesse de desenhar todos os detalhes de uma orelha, de uma árvore, ou de qualquer outra coisa. As pessoas aproximavam-se das telas para estudar os detalhes da imagem, como peritos judiciais, e verificavam se o artista não havia se esquecido de nenhuma veia ou fio de cabelo: se o artista não tivesse se esquecido de nada, poderia esperar a aclamação do público, não importando se, a três metros de distância, sua tela mostrasse uma imagem grotesca.

Os impressionistas fizeram o contrário: com pinceladas mais longas, raramente se debruçando em miudezas, eles criavam combinações inusitadas e elegantes de cores e formas. Se alguém se aproximasse demais da tela, veria ali somente manchas jogadas ao acaso – mas a um passo de distância, veria uma imagem harmônica. Com esse estilo, os impressionistas pintaram a chuva, o vento, a luz, pois as combinações permitiam a representação até de sinais atmosféricos, o que o pincel enferrujado dos acadêmicos jamais permitiria.

Foi uma questão de tempo para o público perceber como era harmônico um quadro impressionista, apesar de algumas pinceladas tortas.

É interessante observar como a oposição entre a neurose detalhista e a imperfeição harmônica que existe na pintura se repete nas outras artes, e até mesmo nas ciências.

Na ciência do direito, uma ciência social, ainda existem – pois nessa área poucas coisas têm mais influência em longo prazo do que as tradições vazias – algumas cabeças que insistem em passar anos estudando artigos de lei, do mesmo modo como os pintores acadêmicos passavam dias pintando pormenores de orelhas e árvores. O resultado disso é uma concepção miserável do direito como um amontoado de regras de conduta, freqüentemente de entendimento difícil, cujos fins velados são distrair algumas dúzias de eruditos e causar sofrimento aos que dependem deles.

O jurista deve ser como o pintor impressionista, e esquecer esse detalhismo senil; os discursos legalistas, as frases ocas, as demonstrações meladas de erudição; e o virtuosismo como um fim em si. Em vez de ler sem maiores reflexões os artigos de alguma das milhares de leis de um sistema jurídico positivista, começar deitando a luz dos princípios mais gerais da ciência e da técnica sobre o seu objeto de estudo, e a partir daí construir um pensamento jurídico harmônico e próprio.

No direito, assim como na pintura e no resto das coisas, a capacidade de ver em panorama e de identificar onde está a harmonia é o que leva o homem a realizar as maiores obras.

Felipe Machado Novais

11/12/08

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Argumentação agonizante

Por Fernando Leme

O autor me parece digno e bem intencionado. Pena que não possa dizer o mesmo da qualidade da arugmentação. Celso Lungaretti, bravo com a cobertura nacional das eleições americanas cometeu este artigo que discuto aqui.

Sua premissa inicial (de que as eleições americanas recebem mais espaço aqui do que lá) não poderia, nunca, ser verdadeira. Só o diz quem talvez não tenha passado um minuto assistindo à FOX ou à CNN, e se não o fez,  não o afirme.

A segunda afirmação (de que nada substancialmente muda se eleito um candidato ou outro) é também falaciosa. Muda claramente pelo fato de que, goste ou não goste o autor, a economia mundial  funciona em alto grau de interdependência. Os EUA são um parceiro econômico importante e um grande comprador do que se produz aqui. Uma recessão lá ecoará, cedo ou tarde, aqui. Isso sem falar nos incentivos e vícios advindos do uso do petróleo que afetam o meio ambiente. Meio ambiente este que, creio, seja o mesmo que o nosso.

A terceira ressalva talvez seja o hábito, quase sempre proposital, de confundir o meio com a mensagem e atribuir à tela (de qualquer dimensão) a estupidez de seu conteúdo. Quem produz conteúdo para TV dignamente se ofenderá com razão.

Conhecimento e desrespeito

Por Felipe Novais

Em qualquer sociedade formada sob a influência européia, onde haja organização do trabalho e alguma estrutura política, como conseqüência necessária dessa situação, existe um grupo restrito de pessoas que possuem algum conhecimento técnico: são os advogados, os médicos, os economistas. E cada uma dessas profissões exige conduta, figurino, vocabulário próprios.

Os advogados, quando conversam entre si, usam de um vocabulário que às vezes só eles conseguem entender. Isso porque, para falar de direito com a clareza e a precisão que a ciência reclama, as palavras do nosso cotidiano são insuficientes. O processo não é um bate-papo.

Mas o advogado não precisa tomar essa língua para conversar com um lavrador. Este não iria entender muito bem o que seria dito. A linguagem tem uma só finalidade: estabelecer comunicação entre as pessoas. Se isso puder ser feito com correção e estilo, tanto melhor; porém a língua não é mais do que um instrumento de comunicação.

Não se sabe se por presunção, ou vaidade, ou falta de bom senso, alguns dos detentores do conhecimento técnico das cidades brasileiras insistem nos preciosismos, arcaísmos e expressões em língua estrangeira ao tratar com aqueles que não fazem parte do seu grupo profissional. O profissional não necessita demonstrar o seu conhecimento de maneira a impressionar o interlocutor, como num espetáculo circense: ele deve tão-somente fazer o seu trabalho, e para isso dispõe da ferramenta.

Mais do que incapacidade de adequação da atitude a cada caso particular, isso revela uma grande falta de respeito. A pessoa que conversa com um profissional assim sente-se desrespeitada, e com isso ergue-se uma parede de incompreensão e hostilidade entre aquele que pode ajudar e aquele que precisa de ajuda.

A tarde da eternidade

Por Felipe Novais

Nestas longas tardes chuvosas,
sem brilho nem cor alguma,
eu sou outra pessoa.
Também os objetos, os animais e as pessoas
são outros.
E os lugares em que estou todos os dias
parecem-me novos.

Como um peregrino num país distante,
passeio por caminhos incertos;
e olhando
até onde a visão permite,
não encontro ninguém.
Se algum pássaro surge no céu,
parece ser uma extensão de mim mesmo.

Com este ar,
sou tomado por uma amnésia embriagante,
e tenho o privilégio
de ser perdoado pelo tempo.

Sobre anjos e sonhos

Por Fernando Leme

Há pessoas reais. E há sonhos.

Uma delas é um sonho lindo. Incomumente perfeita. De trajetória perfeita, como um círculo.

Chega e se vai sem dar notícias da origem e destino. Vai-se e leva consigo a lembrança do sorriso infantil, da voz de anjo.

Nunca soubre como cresceu, como se tornou o que era, de quem gostou, se sofreu. Não sei.

Deixa na memória a lembrança esmaecida, sons distorcidos, fragilidade imensa.

Meu sonho de perfeição. Claro que só um sonho, cujo maior talento foi manter-se como tal.

Leva consigo meus sonhos, carrega-os com carinho, canta para fazê-los dormir.

Canta.

A franqueza de um vencido

Por Felipe Novais

“Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.” (Eclesiastes 1, 2.)

É antigo o meu gosto pela leitura. Esta, freqüentemente entrecortada por algum devaneio poético, ou qualquer coisa semelhante, preenchia boas horas do meu dia. Eu tinha mesmo a ambição de tornar-me um grande escritor, como o Dante da “Divina comédia”, o Goethe do “Werther”, o Lorca das “Bodas de sangue”.

Desde criança eu tenho uma mania boba de grandeza. Tudo devia ser solene e majestoso. Não me contentava com menos do que um Beethoven, que escutava repetidamente, numa espécie de hipnose heróica.

Eu também jogava bola na rua, brigava na escola e atirava mamonas nos cabelos das meninas. Mas isso tudo ficava em segundo plano. Eu desde lá já era um anormal.

Enfim, eu planejava uma carreira de intelectual festejado.

Mas o que me vejo fazendo hoje? Crônicas! O gênero mais frívolo e irresponsável da literatura. Talvez nem literatura seja, parece mais um desabafo desordenado, entre texto jornalístico e redação de 4ª série.

Crônicas! Que erudito sério algum dia prestou-se a escrever crônicas? E se o fez, certamente não teve o atrevimento de publicá-las. As minhas então são uma tristeza: falta de assunto, falta de inspiração… o que me leva a buscar em escritores de verdade algo que legitime o meu falatório.

Se alguém caiu no meu engodo, peço desculpas. Toda essa demonstração de erudição e cultura (que qualquer macaco de circo pode fazer) nunca passou de expediente funesto para disfarçar a minha falta de conteúdo. Por vaidade.

Propósitos

Por Fernando Leme

Algumas pessoas vieram para este mundo a passeio. Outras não.

Pense em alguém como o Mick Jagger, não há relatos de que ele tenha sido um aluno estudioso. Logo aos 19 anos ele montou uma banda e até hoje, com mais de 60 e tantos, continua nela, com suas turnês e discos esparsos para não cansar muito. Claro que de vez em quando ele cruza com alguma Luciana Gimenes, mas nada que tire o brilho e o sossego da trajetória.

Já outros vieram com vários objetivos. Lembra-se do Zé Dirceu? Esse é um cara múltiplo. Fez parte da resistência armada à ditadura militar, criou um esquema de suborno para domesticar o Congresso e talvez tenha como maior objetivo hoje matar o Roberto Jeferson.

Que por sua vez veio para cá para nada. Ou melhor, veio para ser gordo e defender o Fernando Collor, já está fazendo hora-extra desde 1992 e ainda arranja um tempo para alimentar instintos primitivos pelo Zé Dirceu.

Outros vieram para a luta. Por mais distintas e apaixonadas que sejam as opiniões sobre o Ernesto Guevara, uma coisa é indiscutível: Ele é icônico, ou foi reduzido a isso. Mas é um emblema, um exemplo de atitude e abnegação, concorde-se ou não com seus objetivos.

Parte do que somos é feita daquilo que a gente escolhe. E como é possível escolher diversos caminhos, o resultado final se dá pela proporção com que dividimos nosso tempo entre uma coisa e outra. Que você prefira uma cerveja a uma rodada de discussões sobre direito tributário, é compreensível. O triste é ficar só no pagodão.

Para fazer estas escolhas você precisa antes tentar adivinhar o que é que você está fazendo aqui. Ou como diria o Saramago: A que vieste? Mas há um fato, assim definido por Ibsen: “Whatever you are, be out and out; not divided or in doubt”.

Resumindo, nem todo passeio é interessante, nem toda luta.

Bares subterrâneos

Por Fernando Leme

Uma puta saudade do meu amigo Ricardo…

“…no one told you when to run, you miss the starting gun…”

Muito chato quando alguém tão importante decide se mudar pra Nova Zelândia. Nada que fizesse muita diferença se ele estivesse por aqui. Há outros amigos nesta cidade com importância semelhante. E eu não os vejo nunca.

O chato é não poder. Os demais eu não vejo por que encontro razões. Falta tempo, sempre há alguma coisa esperando desesperadamente para ser resolvida.

O Rico eu não posso. Mesmo que eu abandone todos os meus compromissos, deixe a vida correr, e desencane de todas as obrigações, ele continuará solidamente afastado.

Ele ganhou uma música, obviamente escolhida sem intervenção racional. Retrato de um momento específico.

Estávamos nós, vivendo um momento de rockstar caipira e sem dinheiro (e pra ser sincero, sem público também). Mas havia desde então uma crença na nossa qualidade. Eu era mais pretensioso que ele, que sabia relativizar e usar sua irritante modéstia. Tocávamos num bar escuro e subterrâneo (não é figura de linguagem, é sério), fazíamos o melhor possível pra conseguir algum som. Tocávamos numa banda de rock, semiconvíctos, e começamos a introdução de Time, do Pink Floyd.

A introdução é (como era de se esperar) uma cacofonia de pulsos, guitarras e tambores. Mais um efeito que uma música. Meio que nem a Pamela Anderson, que é um apetrecho, não uma mulher.

Enquanto, distraidamente, me deixei levar pelas circunstâncias acabou a introdução e o Rico começou a cantar. Era aquilo. A música pedia um timbre, uma postura, um ódio, um vermelho. E eles estavam lá.

E eu também estava, mais estupefato que com ódio. Com tranças no cabelo, curtindo minhas férias neste planeta.

Curiosamente a música se chama Time. E eu não gostaria de passar pelas mesmas coisas tantos anos depois. Só anseio a mesma competência: a mesma postura, o mesmo timbre…

É. Os desafinados também têm um coração.

Três visitas

Por Felipe Novais

Esta manhã, um gélido ar trouxe-me à lembrança as cenas desenhadas por Juan Ramón Jiménez no livro “Platero e eu”, onde o autor fala dos dias que passou com seu burrinho Platero em Moguer, uma vila da província andaluza de Huelva. Foi com muito gosto que li, há alguns anos, as historinhas deste livro, tão sentidas, e sempre carregadas de graves valores morais. Uma destas histórias, “A menininha”, termina com a simplicidade comovente deste parágrafo:

“Como Deus cobriu de esplendor e beleza a tarde do enterro! Setembro, rosa e ouro, como neste instante, declinava. Como vibravam os sinos naquele ocaso maravilhoso! Voltei pelo taipal, sozinho e triste, entrei em casa pela porta do cercado e, fugindo do convívio dos homens, encaminhei-me para a estrebaria e sentei-me, a recordar, com Platero…”

Não são histórias infantis, mas foram escritas sob uma inspiração infantil, como “O pequeno príncipe” e “As viagens de Gúliver”. Talvez seja a literatura mais difícil de se dominar.

Mais tarde, comprei o volume “Messidor”, de Guilherme de Almeida, um poeta que eu já conhecia mas de quem o romantismo maduro e contido ainda estou descobrindo. No soneto “Amor, felicidade”, encontramos a resignação de um mestre do verso:

“Infeliz de quem passa pelo mundo

procurando no amor felicidade!

A mais linda ilusão dura um segundo,

e dura a vida inteira uma saudade.”

Ainda na mesma manhã, no ônibus, o celular de alguém tocou, de Mendelssohn, uma das “Canções sem palavras”, aquela mais conhecida, e que é a mais luminosa.

Foi o bastante.